Volto a Itália para fazer referência a uma das equipas que melhor futebol pratica na Serie A: a Fiorentina.
Desde já uma palavra ao técnico Cesare Prandelli, vencedor da Panchina d'Oro (Banco de Ouro), prémio referente ao melhor treinador de cada época em Itália. De facto, o futebol praticado pelos viola nada tem a ver com o catenaccio italiano; quer dizer, os princípios de jogo são os mesmos: defesa sólida e coesa, rápidas saídas para o ataque após ganhar a posse de bola. Mas Prandelli só põe a equipa a jogar assim após estar em vantagem no marcador. Para alcançar essa vantagem a Fiorentina pratica um futebol ofensivo e asfixiante, com constantes mudanças de flanco e trocas de posição, num belo futebol apoiado em carrocel a fazer lembrar a laranja mecânica de Cruyff. Exagero? Vejam um jogo dos viola para tirar todas e quaisquer dúvidas. Agora a equipa.
Na baliza Prandelli pratica uma rotatividade entre Frey, ágil e espectacular, e Lobont, discreto e eficiente; qualquer que seja a escolha (a minha seria sempre em Frey) está assegurada a defesa das redes.
A defesa é composta por 4 elementos: Ujfalusi à direita, central de raiz, cumpre sempre bem a defender dado o seu poderio atlético mas peca no ataque por ser central "adaptado"; no centro estão Dainelli e Gamberini, ambos muito altos, fortes quer no jogo aéreo quer na marcação, têm algumas dificuldades quando confontando avançados rápidos e móveis; na esquerda está uma das revelações do calcio da época transacta: Manuel Pasqual (vindo do Arezzo da Serie B), um jogador que faz todo o corredor canhoto a defender e a atacar, com grande precisão no passe comprido e no cruzamento para a área, é um dos municiadores de Toni nestes lances e nas bolas paradas. Por aqui percebemos que a Fiorentina, quando tem a posse da bola, ataca sobretudo pelo lado esquerdo na transição defesa-ataque, normalmente feita por Paqual. Ujfalusi encosta nos centrais, fazendo uma linha a 3. Prandelli decidiu colocar Jorgensen como extremo-direito, um jogador rápido e objectivo, sempre em direcção à baliza ou à linha de fundo, compensando a pouca propensão ofensiva de Ujfalusi.
No meio-campo estão Jorgensen à direita; Donadel encostado aos centrais, um regista recuado ao estilo de Pirlo, tratando a bola com grande técnica, boa precisão de passe curto e longo, mas trabalhando sempre em prole da equipa, apesar de ser pouco móvel, na semelhança de, por exemplo, Custódio; um pouco à frente de Donadel está Liverani, um experiente médio de transição, que leva a bola para o ataque, não através de dribbles mas de passes bem medidos, estando sempre ao pé dos colegas de equipa para lhes dar uma linha de passe, com um pulmão assinalável; nos últimos jogos Prandelli tem optado por Pazienza (a outra opção é Blasi), um carregador de piano com pulmão inesgotável, o típico médio lutador italiano ao estilo de Gattuso ou Brocchi, mas que sabe tratar a bola e endossá-la a quem tem por missão organizar o jogo ofensivo; na esquerda, jogando solto em diagonais para o centro (um pouco à semelhança de Nedved na Juventus) está Mutu, que aparece renascido das cinzas depois do consumo de cocaína que o fez parar de jogar, desenvolvendo um futebol alegre e agressivo, sempre em progressão à procura do passe de morte para Toni ou do seu colocado remate.
Na frente de ataque, o bombardeiro Luca Toni chega e sobra para as encomendas: melhor marcador da Serie A e Bota de Ouro da época passada, com 31 golos em 38 jogos. Um avançado alto e possante, com grande sentido posicional e instinto goleador, que apesar da altura (1,96m) tem na recepção da bola e no remate as suas armas mais mortíferas. Sem dúvida que, se tem despontado um pouco mais cedo para o estrelato (tem agora 29 anos), estaria numa equipa de topo do futebol mundial.
Como percebemos, em termos atacantes a equipa toma uma dinâmica muito própria: na ala esquerda solta Pasqual para posições mais de extremo do que lateral, e também Mutu, que passa a funcionar como 2º ponta-de-lança, deambulando nas costas de Toni. Donadel e Liverani funcionam como bóias de auxílio quando a equipa não consegue progressão, dando uma linha de passe e prontos para porem a bola no flanco oposto, onde Jorgensen dispara em tabelinhas com os médios ou com Mutu. A equipa nunca perde o seu equilíbrio, porque os centrais ficam auxiliados pelo falso lateral-direito Ujfalusi e por Pazienza, sempre mais activo na luta pela bola do que em funções ofensivas, onde recua para dar lugar à subida de Donadel.
Esta Fiorentina está em 16º lugar na Serie A com 11 pontos e com registo de 8V 2E 5D, 22GM 15GS, os viola estariam hoje no 4º lugar, mas os 15 pontos negativos com que começaram a época no rescaldo do calciocaos, assim não o permitem.
Procurem ver um jogo desta Fiorentina de Cesare Prandelli para, além de assistirem a um belo jogo de futebol, compreenderem melhor o que escrevo aqui.